
E o que fica da visita de Sérgio Godinho são as palavras trocadas numa noite de conversa, os sentimentos que vieram do autor, mas que identificaram cada um de nós, e a voz. A de Sérgio Godinho – o “preguiçoso, teimoso e virtuoso” – que ecoa mesmo sem música.
“Sangue por um fio” é o livro que reune os poemas “todos feitos de noite e no computador, que é coisa que não costumo fazer” de Sérgio Godinho. Na noite de sexta-feira, dia 29 de Janeiro, fomos todos – nós, os “portugueses tímidos que não se sentam na primeira fila” - ouvir o autor na Biblioteca Municipal.
Da sua voz, e da do apresentador, o jornalista espinhense Sérgio Almeida, ouvimos os poemas que compõem este livro. E aceitamos o desafio: “experimentem ler o mesmo poema em ocasiões diferentes”, lançou o jornalista, “verão as coisas de forma diferente, quase como que uma metamorfose interior, com significados totalmente novos”.

Uma noite de estrelas
Sérgio Almeida descreve “Sangue por um fio” com um livro onde “cada capítulo é um reflexo sobre o que realmente importa: o amor, a morte ou simplesmente uma noite de estrelas que não estava prevista”.
“Este é um livro só passível de ser escrito na maturidade”, afirma o jornalista, e continua: “a morte surge de forma inquietante, mas há um apego notório ao acto de viver”. Sérgio Almeida não esquece a voz do cantor que “se sobrepõe acima de tudo”, além de uma fácil capacidade de “momentos soltos do dia-a-dia serem únicos e nos fazerem pensar”. “Nada é mais do que o que fica. Nada é menos do que agora”, cita.

Sem espaço para frases bonitas
Sobre a ideia de ler e reler os seus poemas, Sérgio Godinho confessa ter sugerido à editora que cada um fosse impresso duas vezes, para que fossem lidos, também, duas vezes, pelo menos, em ocasiões diferentes. “Muitas vezes, eu próprio, quando lia um poema no dia seguinte não percebia muito bem o que queria dizer”, afirma o autor, “mas depois lia-o a uma hora diferente e já fazia sentido”.
Assim de justifica a poesia “grave” de Sérgio Godinho. “Os poemas são difíceis, não há recurso ao embelezamento”, confessa, “é para ler devagarinho”. Por entre comparações com as suas canções e busca de inspiração para escrever, Sérgio Godinho confessou que, aqui, “não me preocupa a clareza. As pessoas descobrem o que querem descobrir”.
Sobre a constante ligação ao tema da morte, o autor admite que “Sangue por um fio”, “não é um livro pessimista, mas também não é light. É grave”.

Outra vez. E outra.
A rima, essa, raramente apareceu. “Mas as vezes em que se insinuou, também não lhe ia bater, que ela portou-se tão bem comigo durante tantos anos”, afirmou Sérgio Godinho. Primeiro dois ou três, depois “mais um ou outro” e as páginas folhearam-se quase todas. Numa voz quente que ecoa, um bocadinho, em todos. Agora, noutro sítio, cada um irá ler os poemas outra vez. E outra se for preciso.
Desta noite, “nada é mais do que o que fica”. “Se esquecermos estes momentos também não faz mal”, disse. Não o faremos.
Texto: Cláudia Brandão (Maré Viva)


















