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Era uma vez… "O Sorriso do Gato"

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Em equipa que ganha não se mexe.Pelo contrário, coloca-se a titular todas as vezes que for possível. Depois do sucesso que foram “Off Cabaret” e “Café Chinez”, a Academia de Música, o Teatro Popular de Espinho e o Núcleo de Dança Contemporânea Mov’in-Mento voltam a dizer sim ao desafio de um espectáculo comum.

Foram quatro dias de Novembro cheios, repletos de gente e entusiasmo, para se assistir à peça "O Sorriso do Gato". O gato sorriu, e bem! Um sorriso rasgado de orelha a orelha!

Quando se resolve pegar em histórias da nossa infância e transfigurá-las ao sabor da imaginação, não se pode esperar menos do que um desafio, ousado e quase subversivo, à planície poeirenta onde habitam as nossas memórias.

Desafios entre fantasias

Um chapéu misterioso pode ter qualquer coisa lá dentro, só depende de quem olha. O castelo do Barba Azul, se calhar, agora, seria mais uma casa desabitada, em ruínas, mesmo que se lhe mantenha a cor. Enfim, o que se propôs foi uma viagem (impossível?) pela memória do que cada um reteve nos tempos em que, muito credulamente, aceitava a Branca de Neve ou o Capuchinho Vermelho como algo natural. Fantasias? Pois concerteza. E então? Se calhar é mesmo a fantasia o que nos dá alento, o que nos transporta para o paraíso de um mundo ideal, quando ainda mal sabemos juntar duas letras. É bom que, de tempos a tempos, nos sintamos desafiados a comprovar até que ponto esse resquício do nosso imaginário se manteve intacto até à idade dos crescidos.

Nos bastidores

Cheios de sacos, roupas, chapéus – muitos chapéus – aparecem os actores para ver como começa a ficar o cenário. Vêem-se princesas por todo o lado. Umas em pontas, outras a rever o texto. Ao fundo, o piano do professor Francisco Seabra entoa as músicas com que toda a gente cresceu: o Dartacão, o Capuchinho Vermelho, os Sete Anões.

Tal como das outras vezes, a direcção artística tem a assinatura de António Paiva, mas todos deram uma ajuda. Cada um trouxe o seu próprio baú de recordações e a mistura de gerações parece harmoniosa.

Escolhem-se os camarins, espalham-se adereços pelos corredores e os bastidores do Auditório de Espinho ganha uma cor invulgar. Há fitas, sapatos, tecidos, estandartes, colares, coroas e pistolas por todo o lado. Um urso e um cowboy acabaram de ser criados. Da cabeça de Idalina Sousa, responsável pelos figurinos, saíram dezenas de personagens diferentes.

Chegaram os cantores. Sara é repetente e trouxe Ana Paula para o Sorriso. Rui e Belchior deixam os Snowgoose Company para uma viagem pela infância. São responsáveis por canções de sempre como “Smile”, de Nat King Cole ou “I could have danced all night”, conhecida do musical My Fair Lady. Toda a gente dança com os ritmos dos alunos de cordas, percussão e sopros da Escola Profissional de Música.



Sobe o pano

A viagem começa com o som do Big Ben. O tempo corre. O tempo que já foi de ouvir histórias e hoje as conta com menos tempo. Parece lengalenga e é mesmo isso. Há 80 dias para a volta ao mundo de Phileas Fogg e terminou o tempo dos anões para a construção. O tempo pára para a Menina dos Fósforos e aperta para a princesa das Arábias, Xerazade.

“O Sorriso do Gato” traz supresas de todos os lados. Madonnas cruzam-se com ursos e raposas. Os cowboys assustam as fadas. Não há Rainha de Copas, canhões, reis que enterram as filhas ou lobos-maus que venham tirar o sonho e magia dos contos infantis.

Baile além do arco-íris

Foi assim que a dança, o teatro e a música se juntaram apresentando-nos os quadros que um dia nos pintaram, e que agora revisitamos, já mais velhos, com uma pitada de irreverência e humor, os quais são já fruto do pensamento que inevitavelmente nos consome. Mas, então, e a fantasia? “Corta-lhe a cabeça!”. Não, nunca. Vamos bailando neste bosque, no bosque profundo que é a alma humana pois, como já dizia a música, algures lá por cima do arco-íris, os céus são azuis, e os sonhos que ousámos sonhar realmente se concretizam.

texto: André Laranjeira e Claúdia Brandão (Maré Viva)

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